quarta-feira, 10 de março de 2010

A sociedade que criamos

Num destes dias, após uma manhã de trabalho, dirigia-me para o merecido almoço, debaixo duma chuva ameaçadora. Quase no topo da ZIl, a ameaça tornara-se realidade e debaixo duma chuva diluviana, vejo um rapaz que rondaria os seus 14 anos de capuz enfiado na cabeça e passo apressado, ainda uns bons 700 metros de um qualquer abrigo. Continuo o meu caminho e reparo que parado à saída de uma empresa está uma senhora sentada no carro com as mãos tapando o rosto coberto de lágrimas.

Entretanto como se ainda fosse possível a chuva intensificou-se, foi o que bastou para me aperceber que algo estava errado comigo. Inversão de marcha, vou de encontro ao rapazito, agora já em passo de corrida. Paro o carro abro a porta e convido-o a entrar. Ele olha entre surpreso e desconfiado, hesita por um segundo e agradece, mas não. Insisto e a sua desconfiança inicial, confirma-se só podia estar a olhar para um pedófilo, raptor, assassino ou algo pior. Afinal quem poderia parar um carro, num dia de chuva para oferecer uma boleia, sem quer algo em troca e de preferência algo bem perverso e mal intencionado? A esta sua certeza, respondeu com uma corrida que depressa o terá posto a salvo da chuva. Valha isso.

Voltei a descer a rua, já a mulher desconhecida e o seu sofrimento tinham desandado. Se bem que confesso, entretanto tinha perdido a vontade de oferecer ajuda.

Mais recentemente, já noite, no regresso a casa, após a corrida diária, alguém abre o portão da garagem colectiva, o que aproveito para entrar atrás da viatura. Reconheço que vinha, calças de Lycra e parka preta, contudo tal não justifica que no final da rampa a condutora do veículo, moradora recente do prédio vizinho que partilha a garagem com o meu, por uma nesga da janela em que pouco mais caberia que uma folha de papel, me tenha gritado:

- O que quer daqui? Olhe, que chamo o meu marido!

- Mas?! Eu moro aqui no prédio, retorqui

O seu rosto corado denunciou que me terá reconhecido, e arrancou a estacionar, sem um desculpe.

Faz uns anos que um familiar próximo caiu numa rua de Lisboa e um golpe considerável no rosto lhe banhou a cara e roupa de sangue, sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada, apesar de ter estado numa fila, comprado bilhete e somente no autocarro alguém se disponibilizou para ajudar. E fiquei eu indignado com a indiferença, quanta ingenuidade.

Esta é a sociedade que criámos, alimentamos e passamos aos nossos filhos. Todos e cada um de nós, todos os dias.

11 comentários:

  1. Interessante este texto, esta é também a minha opinião.Só discordo de uma coisa: Os macacos no mato têm as suas regras e códigos que as aplicam. Nós os humanos já nem temos regras e cada um safa-se como pode.

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  2. quanta generosidade. ainda dizes q nao acreditas em visionários, a isto chama-se campanha eleitoral a 4 anos de distancia. es o nosso heroi

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  3. Parabéns pelo texto. Gostei mesmo porque é um espelho da alguma, não toda, sociedade dita moderna.
    De facto a palavra solidariedade tantas vezes usada em vão, quase sempre não aplicada e, duvido mesmo que muita gente quando a usa saiba realmente o seu significado.
    Um problema de educação? Talvez...
    Um problema social? É de certeza!
    Há responsáveis por isto? Claro que sim...
    Porque não cada um fazer o seu exame de contrição?

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  4. Pelo caminho que a nossa sociedade leva, daqui a uns anos nem na rua as pessoas falam umas com as outras...escondem-se atrás dos computadores e aí extravazam toda a sua criatividade linguistica...
    Estamos a viver numa sociedade em que se aponta o dedo a qualquer pessoa, por dá cá aquela palha...
    As crianças já não brincam na rua como antigamente...não convivem a não ser na escola...já não há o espírito de vizinhança...alguns vivem ao lado e nem sabem os nomes próprios...
    Cada vez se vive mais para nós próprios e menos em sociedade...

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  5. Belo texto,sim senhor!
    Realmente este é o mundo que estamos criando!
    Todos com medo do parceiro que passa ao lado!
    Cabe-nos dar a volta a este estado de coisas!

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  6. Cabe-nos dar a volta a este estado de coisas!
    _________________
    É verdade... Mas todos! Não apenas alguns!
    Mais! este estado de coisas muda-se certamente mas com menos arrogância desde o "berço"

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  7. "...não convivem a não ser na escola..."
    E mesmo aqui depende da escola. Existem muitas escolas onde essa possibilidade lhes é posta de forma condicionada.

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  8. Bráz o nosso heroi concordo, e diria mais ... o presbitero, mas que tamanha amabilidade a deste senhor ... é pena que tudo isto me soe a uma incumensurável falsidade. Dá-te.

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  9. Depois destes comentários, deixo uma pergunta no ar:
    No tempo da outra ditadura havia mais sentido de solidaridade, apesar da maioria sofrer ( uns na carne e outros psicologicamente) e agora na ditadura da liberdade é o safe-se quem poder.
    Afinal o que será viver melhor!
    Nota: Sou apoiante do 25 de Abril

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  10. Quando eu era jovem, lembro-me que tanto eu como todos os outros jovens,nesse tempo, podia-mos conviver com outras pessoas muito mais velhas, falava-se de variadissimos temas sem qualquer paranóia, pois todos aprendia-mos com isso,muitas eram as vezes em que jogava-mos diversos jogos no velhinho Lusitano.
    Hoje o olhar, o falar, ou o quer que seja pode ser mal interpretado, e poder causar sérios danos, como tal o melhor será não arriscar nada disto, eu da minha parte, e perante tal realidade não o farei.
    Estou certo que tudo isto resulta de falta de educação e da justiça que não é feita a quem deveria ser feita, arrastando-se apenas a lenga lenga.

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  11. Nus estatutos da liberdade do 25 de Abril alguém tirou o capitulo da educação e jogou fora

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